Combater plantas daninhas na entressafra é a melhor estratégia para melhorar o manejo

Foto: Leandro Vargas/Divulgação Embrapa

Entenda por que o manejo outonal ajuda o produtor a reduzir significativamente a matocompetição com a cultura e combater a incidência de pragas na safra seguinte

Muitos imaginam que a entressafra significa uma trégua nas atividades agrícolas e dessa forma seria aceitável manter áreas de pousio na fazenda. No entanto, essa crença pode custar caro para o produtor, pela razão de estimular as infestações de plantas daninhas e pragas que consequentemente vão corroer a produtividade da safra seguinte. “O pousio é uma das piores práticas que o produtor pode adotar. Em áreas sem manejo, as pragas encontram um ambiente ideal para se multiplicarem mais”, afirma Anildo Betencourt, engenheiro agrônomo de desenvolvimento de mercados da Bayer.

De acordo com especialistas, o manejo não deveria perder fôlego durante a entressafra. Na verdade, esse é o momento ideal para iniciar um manejo de sucesso das plantas daninhas, cortando esse mal pela raiz no momento mais favorável. “Se o produtor for exigente, atuar onde o problema ainda é pequeno e eliminar as plantas daninhas eventuais, elas não se estabelecem e qualquer dificuldade de controle é reduzida”, diz Betencourt.

Durante a entressafra, o produtor pode investir especialmente na aplicação de herbicidas pré-emergentes, pois nessa fase a tecnologia terá maiores chances de eliminar as ervas indesejadas e reduzir significativamente os bancos de sementes presentes no solo. “É fundamental que se controle as plantas daninhas na entressafra, o que chamamos de manejo outonal”, diz o engenheiro agrônomo. Segundo ele, a motivação para recomendar essa técnica é clara: “o problema das plantas daninhas é gravíssimo no Brasil. Elas geram prejuízos diretos por meio da matocompetição com a cultura, danos indiretos porque as plantas daninhas hospedam pragas e, se mal manejadas, podem se tornar resistentes aos mecanismos de ação dos herbicidas”, alerta Betencourt.

De acordo com o especialista, a depender da espécie de planta daninha presente na fazenda, ela pode servir de hospedeira e facilitar a proliferação de pragas como a mosca branca, ácaros, nematoides, percevejos, entre outros. “Muitas vezes é difícil para o produtor entender e mensurar essas perdas indiretas. Se a planta daninha não for manejada corretamente durante a safra cultivada e no manejo outonal, há um aumento significativo do ataque das pragas na safra subsequente, como por exemplo o percevejo Barriga Verde (Dichelops sp.), que causa sérios prejuízos no milho safrinha, incorrendo em aumento de custos para controle”, explica Betencourt. Ele estima que, sem um manejo adequado das plantas daninhas, a quantidade de percevejos presentes na lavoura de milho pode ser multiplicada de três a cinco vezes.

Além disso, um outro malefício das áreas de pousio é permitir a evolução natural das espécies de plantas, multiplicando indivíduos resistentes, que posteriormente vão dificultar a ação das tecnologias existentes no mercado brasileiro. “Quanto mais essas plantas daninhas se desenvolvem, mais difícil será o controle e maior será o risco dessas adquirirem tolerância ou resistência aos herbicidas”, diz Betencourt. “Observamos muitos produtores que não tomam nenhuma providência nesse período de entressafra e deixam as plantas daninhas se estabelecerem, isso é um motivo de extrema preocupação. ”

 

Manejo com coberturas

Para combater as plantas daninhas, rotação de culturas e, principalmente, o investimento em plantas de cobertura que produzam grande quantidade de palha (matéria seca), são práticas importantes e eficientes no manejo na entressafra. Além de trazer benefícios para o manejo de solo, promovendo a melhoria física, descompactação por exemplo, as coberturas também contribuem eficazmente no controle das plantas daninhas.

De acordo com Betencourt, as espécies de gramíneas são as coberturas que melhor cumprem esse papel, por gerarem grande volume de massa orgânica e com cobertura mais homogênea no solo. “Um dos manejos mais eficazes para o controle das plantas daninhas se chama cobertura de palha. As gramíneas ajudam bastante”, diz Betencourt. Segundo ele, o controle ocorre porque as coberturas desestimulam o crescimento das plantas indesejadas. Como qualquer planta, as ervas daninhas precisam de luz e água para se desenvolverem, e as coberturas atuam na redução desses recursos naturais. “Uma boa cobertura de palha impede a entrada de luz e controla a planta daninha. As coberturas de gramíneas são mais eficazes porque duram mais tempo, cobrem muito bem o solo e demoram para se decompor”, explica o engenheiro agrônomo.

Para que as coberturas sejam efetivas, o produtor deve se atentar ao período correto de plantio, apostar em sementes de qualidade e, se necessário for, realizar a adubação de acordo com a recomendação técnica. Elas podem ser semeadas com plantadeiras ou por meio de aplicação aérea, respeitando-se as orientações agronômicas. “O importante é que o produtor consiga semear corretamente, tenha uma boa cobertura e que essa semente de qualidade vá produzir uma boa massa seca”, diz Betencourt.

 

A aplicação ideal

Para realizar o manejo outonal corretamente, é muito importante que o produtor identifique as espécies de plantas daninhas presentes na área. O monitoramento da cultura anterior através de uma assistência técnica qualificada, ainda antes da colheita (soja ou milho, por exemplo) para identificar as plantas daninhas presentes na área e os níveis de infestação nos talhões, é uma prática que ajuda muito para tomadas de decisão. Assim ele pode delinear a melhor estratégia de manejo outonal e a melhor hora para pulverizar. “É preciso percorrer a área para uma análise técnica, conhecer de fato as espécies e saber se elas podem ser resistentes, para, a partir daí, escolher a melhor ferramenta e usá-la no momento adequado”, diz Betencourt.

O ideal é sempre aplicar o herbicida quando as plantas daninhas ainda forem pequenas. Para controlar plantas de maior porte o investimento será inevitavelmente mais alto, exigindo aplicações sequenciadas. Investir em dessecação eficaz e apostar em tecnologias eficientes que eliminem essas plantas e também proporcionem um bom efeito residual na área são chave para um bom manejo de plantas daninhas. “Muito cuidado com o estágio de aplicação. O produtor precisa escolher adequadamente os herbicidas em função das espécies e estágios das plantas daninhas. Também deve buscar uma adequada combinação de herbicidas pré e pós-emergentes e fazer a rotação de mecanismos de ação dos herbicidas. Isso aumenta a eficiência de controle e reduz imensamente o risco de que a resistência possa acontecer”, afirma Betencourt.

Segundo ele, o fenômeno da resistência aos herbicidas é natural e pode ocorrer em qualquer espécie de planta daninha. O uso sistemático e exclusivo de um mesmo mecanismo de ação sobre uma população de plantas acelera e agrava o problema. “No passado no Brasil, tivemos sérios problemas com os herbicidas inibidores da ALS sobre populações de Leiteiro e Picão Preto devido a esse fator. Atualmente os problemas de resistência ao herbicida Glifosato vêm aumentando”, alerta o especialista.

Algumas espécies apresentam um cenário mais preocupante no campo, como o Capim Amargoso, a Buva, o Azevém, e o Caruru (Amaranthus sp). “Essas espécies são mais preocupantes porque possuem uma alta capacidade de reprodução, produzindo uma quantidade de sementes extremamente alta. Uma planta de Caruru (Amaranthus palmeri), por exemplo, pode produzir até 1 milhão de sementes em uma safra, e com grande viabilidade”, diz o agrônomo da Bayer. “Além disso, temos casos de espécies em que a semente fica viável para germinar em um prazo de até 7 anos. A aplicação de herbicida pré-emergente ajuda muito a eliminar esse banco de sementes de plantas daninhas que acabou se estabelecendo no solo.”

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COPYRIGHT © REDE AGRO S.A - Última atualização: 09/09/2019 (1.0.3225)